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5 de outubro de 2025 A HUAWEI está dominando a China — e a Apple deveria se preocupar com isso

A HUAWEI está dominando a China — e a Apple deveria se preocupar com isso

O presidente estadunidense Donald Trump tem tomado decisões polêmicas em suas relações com outros países, como no caso recente do “tarifaço” contra o Brasil. Um dos principais alvos do mandatário tem sido a China, atual rival global do seu país. 

Nessa guerra político-comercial, muitas empresas são abaladas e sofrem para sobreviver em novos cenários. Ainda no primeiro mandato de Trump, uma empresa chinesa entrou em sua lista proibida, sofrendo graves sanções: a HUAWEI.

Sob acusações de espionagem e conspiração financeira internacional, os chips e devices da companhia foram banidos dos EUA e, por consequência, de alguns outros países. Além disso, o Google foi proibido de fornecer o Android para os aparelhos da HUAWEI.

Nesse cenário complexo, muitos declararam o fim da empresa e proclamaram que ela deixaria de existir ou passaria a ser um player irrelevante no cenário global. Passados alguns anos, com as restrições americanas ainda vigentes (e sem previsão de mudança nesse segundo mandato de Trump), o contexto atual é bem diferente do profetizado.

Em visita recente à China, fiquei impressionado com a quantidade de lojas próprias da HUAWEI, sempre lotadas e com uma imensa gama de produtos que vão de celulares a carros elétricos. A partir da observação e de uma pesquisa um pouco mais aprofundada, pude perceber que, ao invés de minguante, a HUAWEI cresce de maneira acelerada — e em breve poderá ocupar protagonismo global no mercado tecnológico.

A seguir, compartilho os dados que me levaram a essa conclusão.

A reconquista do mercado chinês

Com conceitos que lembram demais (para não dizer copiam) as Apple Stores, a HUAWEI pulverizou suas lojas pela China.

Espaços de experiência, ambiente “premium”, serviço pós-venda reforçado e foco no cliente são algumas das estratégias de varejo adotadas. Lojas de rua, lojas de shopping, lojas pequenas, megastores, com diferentes formatos e públicos-alvo… a empresa se tornou onipresente nas principais cidades do país.

A ideia foi reconstruir a aura da marca nacional como sinônimo de inovação e prestígio, e não apenas de utilidade. Essas lojas também ajudam a solidificar o ecossistema HarmonyOS, fortalecendo o vínculo com usuários e garantindo fidelidade local, que pode ser exportada em mercados adjacentes.

Para se ter uma ideia do poder de fogo, no segundo trimestre de 2025, em meio a uma retração de aproximadamente 4% no mercado doméstico, a HUAWEI alcançou impressionantes 18,1% de participação nas vendas de smartphones, com vendas aproximadas de 12,5 milhões de unidades — um salto de 17,6% em relação ao ano anterior. Em 2024, a receita bateu 862,1 bilhões de yuans (~US$118,2 bilhões), com crescimento de 22,4% frente a 2023.

Com uma base tão sólida, a empresa pode começar a mirar além da China, com capacidade para investir em expansão, inovação e presença internacional.

Expansão externa: Europa, África e mercados emergentes

Em diversos países europeus, é impossível ignorar a presença marcante da HUAWEI nos outdoors e em outros diversos canais de mídia. Além da sua marca, a empresa também tem uma parceria estratégica com a Honor, com quem compartilha o seu ecossistema. A Honor cresceu 20% apenas no primeiro trimestre de 2025, tornando-se a quarta maior marca de smartphones no continente.

Na África, a marca registrou 161% de crescimento no segundo trimestre de 2025, com 800 mil unidades vendidas e 4% de market share, fora a venda de outros produtos.

Em infraestrutura de redes (RAN/5G etc.), a HUAWEI continua um dos líderes globais — mantendo mais de 30% de market share em muitos relatórios e assegurando presença estratégica em países emergentes.

A HUAWEI já está testando territórios, sem expor todas as peças publicamente, mas construindo influência de forma segmentada e estrategicamente capilar.

Inovação em dispositivos

Se a Apple ainda evita dobráveis “radicais”, pensando em lançar algo em 2026, a HUAWEI está dobrando sua aposta com avanços agressivos. No mercado global de dobráveis, ela ocupa liderança com 48% de participação nas remessas, segundo a Canalys.

Alguns modelos têm se destacado, como o Mate X6, parte central da estratégia de expansão externa da HUAWEI, e o Mate XT (tri-fold), que segundo números não oficiais teria vendido aproximadamente 400 mil unidades até agora, mesmo com preço alto (3.500€) e limitações de alcance no ocidente (sem Google). Recentemente foi lançado o Mate XTs, nova geração tri-fold, com painel OLED 1 dobrável de 10,2 polegadas.

Mas o grande destaque tecnológico dos últimos meses foi o MateBook Fold Ultimate Design, um impressionante tablet-notebook de 13″ e que, aberto, chega a 18″. Fino, leve, com jeito de iPad, mas funcional como um notebook. Na uso com 90 graus, pode-se usar a própria tela como teclado ou acoplar um que acompanha o produto à parte.

Eu tive a oportunidade de testar um, e a parte ruim foi ter que devolver. Prático e elegante, ele traz aquele ar de inovação disruptiva que há tanto tempo não vemos na Apple. O preço ainda é salgado, pode chegar a US$3,3 mil conforme a configuração — mas confesso que, se não fosse a integração tão limitada com o uso ocidental (Google, Microsoft, etc.), eu teria arriscado trazer um!

Automóveis elétricos, luxuosos e inteligentes

Se o projeto de carro da Apple flopou, a HUAWEI não brinca quando entra no setor automotivo e almeja ser um player estratégico! Em suas lojas maiores, é possível ver uma grande quantidade de modelos para todos os bolsos.

Por meio de parcerias, como a marca AITO (sob a aliança HIMA — Harmony Intelligent Mobility Alliance), a empresa vem conquistando seu espaço. Em junho de 2025, a AITO superou marcas importantes como NIO e Li Auto. No competitivo mercado chinês de carros elétricos, dominado majoritariamente pela BYD (com 35% de participação), as parcerias da HUAWEI já abocanharam cerca de 4% de market share.

Os lançamentos recentes têm sido bastante robustos. O AITO M8 ultrapassou 7.500 encomendas em uma hora na pré-venda, com 6 horas de exposição alcançou 21.000 e, em poucas semanas, passou de 70.000 pedidos. O AITO M9, modelo premium, teve mais de 20.000 pedidos iniciais e, 12 meses após lançamento, as entregas acumuladas superaram 200.000 unidades.

Outras marcas sob a influência da HUAWEI incluem Stelato (com BAIC/HIMA), que lançou modelo S9 sob cooperação técnica, Luxeed e a marca de ultra-luxo Maextro, fruto de parceria HUAWEI + JAC, com fábrica superautomática de 200.000 unidades/ano planejadas.

O movimento é claro: a HUAWEI quer dominar não só de fora com redes e devices, mas entrar no cockpit do consumidor — integrando seu ecossistema à condução, sensores e experiências automotivas.

Microchips, a grande aposta do futuro

Pouco tempo atrás, contemplamos uma outra disputa entre EUA e China: a guerra pelos microchips.

Trump havia proibido a NVIDIA de fornecer chips para empresas chinesas, provocando inúmeros prejuízos e inumeráveis horas de negociação. Nesse cenário, o governo chinês percebeu que, se quiser competir de igual para igual, precisará dominar a cadeia completa de hardware — sem depender de chips externos. E a escolhida para liderar esse processo foi a HUAWEI. O governo local pretende transformá-la na maior fabricante de microchips do mundo, e os movimentos já começaram.

Em 2025, a empresa revelou publicamente um roadmap de chips Ascend, com planos para as versões 950, 960 e 970 nos próximos anos. O vice-presidente Eric Xu disse que os sistemas Atlas 950 e Atlas 960 serão “SuperPoDs” com capacidade para 8.192 e 15.488 chips Ascend respectivamente, arquitetura “supernode” para interconexão de alto desempenho. A HUAWEI afirma ainda ter desenvolvido memória de alta largura de banda (HBM) internamente, algo que antes dependia de fornecedores estrangeiros.

Nem tudo é sucesso. Apesar dos ambiciosos planos, há restrições: agências dos EUA estimam que a produção dos chips Ascend em 2025 ficará em 200.000 unidades ou menos, e que a maior parte será entregue somente dentro da China. De toda forma, relatos não comprovados apontam que a HUAWEI melhorou o rendimento funcional de seus chips (yield) para 40%, crescendo 20% no ano anterior, o que melhora viabilidade e custo.

Esse movimento é um passo político e técnico: antes, essas capacidades ficavam nas sombras; agora, são bandeiras de ambição para competir com NVIDIA, AMD e outras gigantes de IA. A julgar pela pujança e determinação da China, é muito provável que veremos essa briga esquentar nos próximos anos.

Comparativo Apple vs. HUAWEI: vulnerabilidades e cenários

E o que a Apple tem a ver com tudo isso? Tudo. A expansão da HUAWEI poderá ter fortes impactos no progresso da empresa. A Apple depende fortemente de mercados maduros (EUA, Japão e Europa ocidental). Embora a HUAWEI não ofereça riscos nesses mercados, o mercado chinês tem um peso relevante no faturamento da empresa americana — e, lá, a briga é pesada. Além disso, estrategicamente, a HUAWEI tem mirado nos mercados emergentes, onde ainda há alto crescimento e menor estabelecimento de fortes marcas ocidentais, impulsionando seu crescimento global.

Em termos de sistema operacional, se a estrutura HarmonyOS + hardware + serviços + automóveis for escalada, a HUAWEI poderá oferecer um pacote bem mais amplo e atraente que o famoso e dominante ecossistema da Apple.

Além de tudo isso, a aposta em chips próprios e clusters de IA poderá reverter para HUAWEI parte da dependência que empresas ocidentais têm de fornecedores terceirizados — um movimento de verticalização que poderá reduzir a capacidade de resposta da Apple.

Conclusão

Existe um longo caminho pela frente, mas, ainda que os dados fora da China não mostrem “domínio global”, a HUAWEI está construindo a infraestrutura para isso. Se ela conseguir converter presença estrutural (rede, automóveis e data centers) em penetração de usuário final (smartphones e wearables), podemos estar diante de uma virada sutil, mas perigosa para a Apple.

A HUAWEI não está apenas se reinventando após as sanções: está construindo os blocos de um ecossistema global — e fazendo isso com estratégia, capital (recém-recuperado), inovação agressiva, presença física e um ingrediente único no mundo: fortes e quase ilimitados investimentos governamentais. A Apple já enfrenta competidores nos EUA e na Europa, mas o verdadeiro risco é perder o controle simbólico e concreto nos mercados emergentes, onde a HUAWEI está começando a plantar a sua bandeira.

Será que em alguns anos o principal concorrente global da Apple será a HUAWEI? Ou a Apple nem será mais uma das dominantes globais? O tempo (curto) trará essa resposta!

Notas de rodapé

1    Organic light-emitting diode, ou diodo emissor de luz orgânico.

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